Iogurte grego
Elaine Valeria de Camargo
Você vai comer seu danone. Não é bem um danone, é mesmo um iogurte grego super saudável. Mas por força de um hábito de quase 50 anos, você chama o produto de danone.
Você lambe o alumínio que cobre a embalagem e corta a língua. Então a voz da sua mãe vem direto no seu ouvido dizendo, séria, desde os seus 4 anos de idade, que não é pra lamber a tampa porque é isso que dá. Além do mais — ainda é a voz da sua mãe — você não tem mais idade nem pra comer danone, nem pra cortar a língua desse jeito tão bocó.
“Mas é iogurte grego, mãe!” — você protesta em pensamento.
Você vai comer a primeira colherada do iogurte grego e pensa: “por que será que se chama iogurte grego?” E pensa também que você nunca foi à Grécia e, a depender dos relatos de viajantes dizendo que lá faz mais de 30 graus em julho, nunca irá, porque suas férias são sempre no meio do ano e você não tem mais idade pra ficar morrendo de calor em outro país.
Você tenta se concentrar no seu danone, mas então se lembra que danone é uma marca e que você viu uma postagem recente falando que a dona desta marca está patrocinando a guerra. Agora é a imagem do seu pai que surge, quase que dentro do pote: seu pai, na frente da TV, declarando que gente que mata criança em guerra não merece viver.
Você tinha 15 anos e ficou impressionada porque seu pai não era de violência, mas essa frase continha, subentendida, a pena capital que ele mesmo rechaçava. Você viu que ele estava chocado com as notícias — você acha que era a guerra da Síria, não lembra bem, são tantas guerras — e não quis abrir o debate. Na memória ficaram a frase, a tendência a concordar e o paradoxo.
Depois você pega uma colherzinha e pensa por vinte segundos se o diminutivo “colherinha” está correto ou não.
Em seguida, lembra da Maristela com 7 anos, quando decidiu comer um potinho inteiro só usando o dedo, porque estava com preguiça de ir até a gaveta para pegar uma colher. Você pensa que é incrível você e a Maristela serem amigas até hoje, coisa rara mesmo, e pensa em como é bom ter a Maristela por perto, agora que já faz tanto tempo que nem seu pai e nem sua mãe estão mais.
Você está comendo seu danone, mas já esqueceu de prestar atenção ao sabor. Aliás, você nem come isso porque é gostoso; você come porque tem 4,5g de proteína e precisa controlar sua ingestão diária adequadamente, conforme um app que baixou faz uns 8 meses.
O pote vai se esvaziando e você vai lembrando da sua prima favorita, que estuda Ecologia na USP e que avisou que já encontram microplástico até em placenta. “O que eu vou fazer com mais esse pote agora, meu Deus?”, pergunta-se você, se preocupando de verdade com o destino da embalagem, tentando lembrar como é mesmo que faz pra calcular sua pegada de carbono na Terra.
Você decide deixar o pote dentro da pia, acumulando pra lavar junto com toda aquela louça de domingo. Você lembra que antigamente a louça de domingo era muito, muito maior que essa que está aí agora na sua frente e que, naqueles tempos, a cozinha estava sempre arrumada. Você constata derrotada que sozinha não consegue mais dar conta de seus 3 pratos e 6 talheres: a louça sempre se multiplica e vence.
Você queria apenas comer o seu danone, mas percebeu que ele é o seu chá de tília proustiano: ele traz lembranças, imagens e pensamentos que estavam escondidos debaixo da língua, debaixo do alumínio que corta, debaixo da mulher que você se tornou.
Então você pega seu celular e começa a escrever, ainda com a colher na boca, como se fosse um cigarro, rindo do charme que deve ser tirar uma foto oficial de escritora escrevendo com uma colher na boca.
Por fim, interrompe a escrita porque uma outra ideia surgiu, de repente, e não tem nada a ver com a crônica que você está escrevendo, mas precisa ser anotada com urgência, senão a ideia foge. Abre o bloco de notas e digita:
— Não esquecer de comprar iogurte grego.
Publicado também no Substack do Lhano Zine em 31 de agosto de 2025.

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