Causa mortis
Elaine Valeria de Camargo
Quando saiu o resultado da biópsia do Sr. Saito, o patologista afirmou ter encontrado em seu coração uma porção de tristezas.
As filhas, incrédulas, se perguntaram: “Desgosto? Ele parecia tão ocupado com suas coisas...”
Sim, foi isso: desde que Dona Érica perdeu a memória e não reconhecia mais seu próprio marido, sr. Saito foi engordando, guardando uma raiva gigantesca dentro do peito.
Érica não se lembrava mais do namoro, do noivado, do casamento, de como fizeram cada uma das três filhas... Saito foi percebendo gradativamente o abandono até encontrar-se completamente sozinho, já que Érica não compartilhava mais nada com ele. Seu sincero e profundo amor não era mais correspondido.
Tentou se fartar de outras coisas mundanas: futebol, apostas, o monótono clube de bocha, as séries estúpidas na TV. Mas seu coração inconformado só pensava em Érica e na história de construíram juntos. História que ele sim lembrava tintim por tintim...
Se conheceram da maneira mais improvável: numa exposição de flores. Ele, fotógrafo amador trabalhando para um jornal do bairro. Ela, ajudando a tia-avó florista. Ele a fotografou perto das azaleias. Pediu seu telefone, porque lhe daria algumas fotos assim que ficassem prontas. Foi muito fácil convencer Érica que ele estava totalmente apaixonado. Bastava ver os belíssimos retratos que havia feito dela...
Érica já não lembrava mais de nada, nada...
Saito foi entufando de ódio, de dor. Um dia, inchou totalmente e, como um vaso que não suporta mais as raízes que tentam expandir, seu coração explodiu! Morreu enfartado de tristuras.
Érica ainda vive. Continua na melhor casa de repouso que as filhas podem pagar. Lá, ela tem permissão para ir todos os dias ao jardim para cuidar das azaleias. Não se lembra muito bem por que, mas sabe que gosta muito delas.
Inspirado no desafio da coelhobrancosl, “30 dias de escrita” – Dia 02 – Azaleia.
Publicado também no Substack do Lhano Zine em 2 de setembro de 2025.

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