quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Conto #3 - Escândalos

 




Escândalos

Elaine Valeria de Camargo

 

Escândalo bom é o que acontece com o outro. 

 

Essa história é famosa e foi um escândalo na época. 

Madame Açucena Alves Feltri Martins era muito rica e bem-casada com Dr. Irineu MartinsNão tinham filhos e viviam felizes num casarão na Alameda Zomelli. 

Certa feita, Açucena começou a dar pela falta de alguns objetos pessoais dentro da mansão. 

Primeiro foi um lenço Hermès, lançamento do ano. Depois foi um par de chinelas de pelúcia, que estavam jogados no fundo do armário e ela nem usava muito, mas que foram trazidos de Milão. Por fim e mais grave, um estojo contendo um conjunto de brincos e colar de pérolas. 

Açucena comentou o fato com o marido, esperando que ele tomasse alguma providência: 

 Acho que foi alguma das empregadas, Irineu. 

Ele baixou um pouquinho o jornal e olhou-a por cima das páginas, mas não se importou com o assunto: 

 Açucena, meu amor, ando tão ocupado com os negócios ultimamente... Estas reuniões às quintas-feiras estão me matando! Se você está sentindo falta de alguma coisa, pegue dinheiro e compre outra nova! 

— Mas, Irineu, não é justo que me levem o que é meu! 

— Claro, Açucena, não é justo. Mas é tudo coisa sem importância... 

Ela foi se aborrecendo. Ele dobrou o jornal e olhou-a nos olhos: 

— Vamos láo que foi mesmo que te levaram? 

Açucena listou novamente os três objetos. 

— E você usava realmente alguma destas coisas, Açucena? 

— Essa não é a questão, Irineu! As chinelas, por exemplo, foi você que me trouxe de presente da Itália! Eu jamais me desfaria delas! 

— Se você quiser ir pra Itália amanhã comprar chinelas novas, você pode ir, meu amor... 

— Irineu, você está debochando de mim! Eu só queria que você resolvesse isso... 

— Sinto muito, mas ando ocupado demais. Se você quiser arranjar essa dor de cabeça para você, vá em frente e fique à vontade. 

E, dizendo isso, Irineu reergueu o jornal, encerrando o assunto. 

Determinada, Açucena decidiu investigar por si só. Passou a vigiar suas quatro empregadas e a pressioná-las com perguntas. 

Três tinham respostas firmes e razoáveis, mas a jovem Zulmira sempre dava respostas vagas e sem sentido. 

— Ô, Zulmira! Por acaso você viu minhas chinelas por aí? 

Zulmira desconversava e ia lavar o banheiro. 

— Zulmira, sabe aquele lenço que tem uma âncora desenhada? Viu ele por aí? 

Zulmira ficava sem jeito e respondia embaralhado. 

Açucena chamou-a para uma conversa mais séria: 

— Vamos, Zulmira, desembucha: você sabe o que aconteceu com as minhas coisas? 

— Que coisas, senhora? 

— Meu lenço, minhas chinelas, minhas pérolas, oras! 

Zulmira olhou pro chão: 

 Senhora, sei que a senhora é muito correta. E eu também sou muito correta. É tudo o que posso dizer. 

— Zulmira, eu exijo uma resposta decente! Você sabe ou não onde estão as minhas coisas? 

— Eu realmente não posso dizer mais nada, senhora... 

Açucena exasperou-se: 

— Mas que insolência! Você está em minha casa! Se você não sabe responder uma pergunta tão simples, é porque você sabe muito bem onde estão as minhas coisas! Você pegou, não foi, sua atrevida? Fora das minhas vistas! Está despedida, sua ingrata! Sempre paguei direitinho todas vocês! Sempre garanti todos os seus direitos! E é assim que você retribui? Olho da rua! 

Zulmira derramou algumas lágrimas caladaDeixou o uniforme dobrado em cima de uma cadeira e saiu pela porta dos fundos levando sua habitual sacola. 

*** 

Umas duas semanas depois, chegou também pela porta dos fundos um homem usando chapéu, terno gravatacheirando a perfume bom. Queria falar em particular com Dona Açucena. Curiosa, ela foi atender o desconhecido pessoalmente: 

— Bom dia, em que posso ajudá-lo? 

— Quero ter um particular com a senhora. É sobre suas pérolas. 

Açucena teve um sobressalto, mas ele emendou: 

— Fique tranquila, madame. Não sou um ladrão. Mas eu sei onde estão. Posso entrar? 

Açucena recebeu-o na cozinha. 

 Posso me sentar? Acho que a senhora deveria se sentar também... 

Contrariada, Açucena obedeceu. Apoiou os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos. Continuou ouvindo: 

— Dona Açucena, talvez a senhora não me reconheça, mas eu sou o mordomo da Sra. Lucíola Alvarenga Pires Telles. Trabalho para ela faz oito anos. 

— Ah, sim, claro, Lucíola... — disse Açucena, com um ar de intimidade que não existia entre ela e a celebridade — Foi Lucíola que o mandou aqui? 

— Não, senhora, ao contrário: Dona Lucíola não sabe — e não pode saber — que vim. 

Açucena, claro, ficou intrigada. O homem continuou: 

— O assunto que me trouxe aqui é muito delicado. Vou dizê-lo, mas espero não aborrecer a senhora e espero que a senhora não me dê por fofoqueiro. Meu único objetivo é reparar uma injustiça feita à senhorita Zulmira. 

— Zulmira? — Açucena ergueu as sobrancelhas — A empregada que trabalhava aqui? 

— Sim, senhora. A senhorita Zulmira gostava muito de lhe servir. Zulmira dizia sempre que a senhora era boa e justa. No entanto, sobre o caso dos objetos desaparecidos, ela não conseguiu lhe falar nada porque estava com medo... 

— Medo? Medo de quê? E o senhor conhece Zulmira de onde? — Açucena estava cada vez mais desconfiada daquela conversa. 

— Conheço Zulmira há muito tempo, desde muito menina, porque trabalhávamos juntos na casa do Dr. Alfonsino Almeida, o cardiologista. 

— Claro, claro, o Dr. Alfonsino, que Deus o tenha... 

— Depois que ele faleceu, fui trabalhar na casa de Dona Lucíola. Zulmira devia ter uns dezesseis anos na época. Trabalhou em vários lugares, até se estabelecer aqui com a senhora. Temos contato até hoje. 

— Entendi. E o que isso tem a ver com minhas pérolas? 

 Pois bem. Zulmira me contou que a senhora a havia demitido. Perguntei o motivo e ela me falou das chinelas, do lenço, das pérolas. Sabendo que ela foi acusada injustamente de roubo, estou aqui para lhe explicar o que aconteceu. Mas já aviso: a senhora não vai gostar... 

Impaciente, Açucena levantou a voz: 

— Homem, desembuche de uma vez! O que é que você tem tanto pra me contar? 

— Seu marido deu essas coisas de presente para Dona Lucíola. 

Açucena ficou atônitanão disse palavra. Pareceu precisar de um século para compreender o que aquele mordomo tinha lhe dito. Depois, deu uma risada alta, forçada, sem graça: 

— Mas que piada é esta que você está me dizendo?! Eu não entendi uma palavra do que o senhor me disse!! 

Calmo, ele reforçou: 

— Estou tentando explicar para a senhora que Dr. Irineu e Dona Lucíola são amantes. Seu marido deu seus objetos de presente para ela. 

Açucena ficou ainda um tempo em silêncio, as duas mãos no rosto, um suspiro fundo. Depois ergueu a cabeça e mirou o fundo dos olhos do seu informante: 

— Então Zulmira viu Irineu pegando as coisas? 

— Isso mesmo, senhora. 

— E Zulmira sabia que eles eram amantes? 

— No começo, ela não sabia. Aí foi o destino mesmo: Zulmira falou do sumiço de suas coisas e das perguntas que a senhora tinha feito. Curiosamente, a descrição dos objetos batia com aqueles que apareceram na casa da Dona Lucíola. Daí, foi só “ligar os pontos”. 

— Entendo... E meu marido frequenta muito a casa de Dona Lucíola? 

O homem hesitou em responder. 

— Eu insisto, por favor. Preciso saber. 

— Posso afirmar que praticamente toda quinta-feira. 

— Compreendo... 

Ficaram mais um tempo em silêncio. 

O homem decidiu se levantar para partir: 

— Bem, o que vim fazer aqui já está feito. Vou-me embora. 

— Só mais uma pergunta: — e o senhor não precisa responder se achar muito inconveniente... — por que o senhor veio até aqui defender Zulmira? Tem algum interesse especial na mocinha? 

— De forma nenhuma, madameSó gostaria que não cometessem uma injustiça com uma moça tão séria e trabalhadeira! Nunca vi empregada mais dedicada do que ela. Disso ela deu provas trabalhando no Dr. Alfonsino. Quero bem à Zulmira como quero bem à minha filha, que está agora no Rio de Janeiro. Elas têm a mesma idade... Sou viúvo, sinto falta da minha menina. Zulmira é uma companhia para mim, conversa sobre tudo, preenche meus dias... É uma moça boa e honestaAcho que ela merece um futuro bom e decente! 

Ia saindo, mas voltou: 

— Zulmira é tão decente, que não queria contar-lhe o que aconteceu para não causar-lhe transtornos ou comoção. Ela sabia que a senhora ia ficar decepcionada com o seu marido... Zulmira nem sabe que eu estou aqui. Eu vim de espontânea vontade. 

— Entendo, sim, agora entendo tudo... Muito obrigada, senhor...? 

— Lírio, meu nome é Lírio, ao seu dispor. 

*** 

Naquela mesma semana, Açucena recontratou Zulmira, pedindo-lhe mil desculpas pela acusação infundada e aumentando-lhe o ordenado. 

Ainda naquela mesma semana, pediu o divórcio. No início, Irineu não entendeu nada. Mas como ela deu detalhes da traição dele, não houve muito que pudesse fazer. Ele pediu discrição, mas os jornais da época não perdoaram: no Arquivo Municipal, pode-se encontrar no mínimo quinze colunas sociais noticiando a separação. A manchete mais suave entre elas era: “Roubou da esposa para dar à amante!” Foi um escândalo! 

O sr. Lírio tentou manter-se no emprego, como se nada tivesse acontecido. Mas uma espécie de paparazzi da época descobriu que o pivô da separação entre Açucena e Irineu era Dona Lucíola. Então... foi outro escândalo! Dona Lucíola era casada com um engenheiro que estava em Bruxelas há seis anos. Ele só vinha para o Brasil nas férias. Quando tomou conhecimento das notíciasmandou buscar Lucíola e ela nunca mais pisou aqui. 

Dr. Irineu envolveu-se ainda com algumas mulheres casadas para, finalmente, unir-se em matrimônio definitivo com uma mocinha de 26 anos. Na época, ele já tinha 61. Foi um escândalo! 

O casarão da Alameda Zomelli pertencia à Açucena e ela continuou vivendo ali. Infinitamente grata ao sr. Lírio, insistiu muito para que ele fosse trabalhar para ela... Sem poder mais servir sua antiga patroa, ele aceitou o novo emprego. 

E então, um último fato estampou as colunas sociais: seis anos depois desses acontecimentos, Açucena Alves Feltri casava-se com seu mordomo, Lírio Augusto dos Anjos Silva. Pra época, um escândalo!



Inspirado no desafio da @coelhobrancosl, “30 dias de escrita” - Dia 03 - Lírio. 

Publicado no Substack do Lhano Zine em 03 de setembro de 2025. 

 

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