terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Conto #6 - Holanda, 1995


 


Holanda, 1995

Elaine Valeria de Camargo

 

 

 

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. 

(Frase famosa atribuída ao também famoso Joseph Goebbels). 

 

 

Em 1995, Joaquim frequentava um curso de designer gráfico. Com a ajuda da avó Cidinha, comprou um PC e passou a estudar vários programas. 

Um dia, conversando com a velha, Joaquim estava tentando explicar que era perfeitamente possível alterar uma foto, falsificar uma imagem, adulterar uma informação. Ele queria educar a avó para que ela não acreditasse em tudo o que via na internetDona Cidinha ainda não compreendia muito bem o que o neto tentava lhe dizer: 

 Mas, Quinzinho, se é uma foto, é um registro histórico, não? 

Então Joaquim teve uma ideia didática: pegou umas fotos quaisquer de uma viagem que Dona Cidinha havia feito recentemente até Americana, interior de São Paulo, e trocou todos os fundos. Fez parecer que Dona Cidinha estava na Holanda, com direito a canais, moinhos de ventos e bicicletas. Caprichou mesmo na edição. Quando Dona Cidinha viu as fotos no computador, chorou de rir: 

— Eu não sabia que era possível fazer uma coisa dessas! Parece tudo tão real!! Eu nunca vi uma tulipa de verdade na vida e olha eu rodeada delas!!! 

Joaquim sorriu, certo de que a avó finalmente entendera que era totalmente possível a manipulação de imagens e que, portanto, não era para ela acreditar em qualquer coisa que via na World Wide Web. 

— Quinzinho, dá pra imprimir também? 

— Claro, vó. 

Joaquim mandou imprimir 55 fotos em papel fotográfico. A mulher se deleitou mostrando o álbum para as amigas, para os familiares, para os chefes... Ia mostrando foto por foto e inventando uma história para cada uma. As pessoas sabiam que aquilo era Photoshop, mas a brincadeira rendeu muita interação e comentários hilários. Volta e meia, Cidinha pegava o álbum para mostrar para alguma visita entediada e se divertia a valer! 

Trinta anos se passaram; o Alzheimer chegou pra ficar. Dona Cidinha agora tem quase cem anos e ainda fala pelos cotovelos. Outro dia, estava com os dois bisnetos que Quinzinho lhe deu, tentando se lembrar de coisas boas: 

 Ah, crianças, a bisa é muito feliz! A coisa que eu mais gostava de fazer era viajar... A viagem mais bonita que eu já fiz foi para a Holanda, em 1995... Foi Quinzinho que pagou a viagem pra mim. Seu pai é um homem muito bom... Vocês querem ver as fotos? 




Inspirado no desafio da @coelhobrandosl, “30 dias de escrita” – Dia 07 – Tulipa.

Também publicado no Substack do Lhano Zine em 7 de setembro de 2025.

 

 

 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Conto #5 - Cheiro bom de peônia



Cheiro bom de peônia

Elaine Valeria de Camargo

 

Já na cama, seminus e prontos para dormir, Marisa pergunta de repente: 

— Cláudio, chega de mentir para mim: quem é que esteve aqui? 

— Do que você está falando? — ele responde surpreendido. 

— Deixa de ser cínico, Cláudio! E eu não estou sentindo o cheiro?? 

Cláudio sentou-se e falou muito sério: 

— Marisa, eu não  sentindo cheiro de nada. Você  sentindo cheiro de quê? 

— De perfume. Cheiro bom de peônia. 

Claro, foram peônias mesmo as flores que Cláudio tinha comprado pra Paola! Agora ele se lembrava... 

— Você está trazendo uma mulher para dentro desta casa, é isso, Cláudio? Responde! Eu não vou fazer escândalo. Só quero saber a verdade. 

— Marisa, eu acho que você está exausta, só isso. Esses cultos que você começou a frequentar acabam muito tarde. Você só está precisando descansar. 

— Cláudio, você não me enrola, hein! Se eu souber que você está mentindo pra mim, vai sofrer as consequências! 

— Não estou mentindo, amor. Vai dormir, vai. 

Marisa virou pro lado, cobriu-se até o pescoço e dormiu em cinco minutos. 

Já Cláudio, ficou divagando naquela moleza que precede o sono... Começou a ensaiar como contaria a verdade para Marisa... Surgiram vários pensamentos, bastante embaralhados: 

“Como eu vou dizer pra Marisa que a Paola veio aqui matar as saudades? Ela vai se assustar e não vai acreditar!” 

Imaginou-se explicando a situação e a mulher arregalando os olhos: 

“A Paola me apareceu aqui sim, mas em sonho. Ela até te mandou um abraço! Veio pra me lembrar que sou padrinho do Rafinha e mandou eu ter uma conversa séria com meu cunhado, porque ele não está dando conta da educação do menino...” 

Continuou devaneando: 

“Amanhã eu vou mandar rezar uma missa pra minha irmã... Amor, lá na sua igreja evangélica também tem alguma cerimônia pros mortos? 

Concluiu, se ajeitando no travesseiro e cerrando as pálpebras: 

“Ah, Marisa, e você tem razão: o cheiro é de peônia mesmo! A gente colocou peônias no caixão dela... Já faz 4 anos. E eu nem sabia que o cheiro ficava no fantasma... 

 

 

Inspirado no desafio da @coelhobrancosl, “30 dias de escrita” - Dia 06 - Peônia.

Também publicado no Substack do Lhano Zine em 7 de setembro de 2025.